Sábado quente e o almoço pedia um bom vinho branco. Peguei a carta do restaurante e fui direto ao que conhecia. Não estava muito disposto a qualquer novidade. Semana passada falei sobre a viognier, e passando pela mesa do dono da casa cheguei a recusar uma pequena taça do Las Perdices feito a partir dessa uva. Assim, me restava pedir um Zapa com a certeza de que tomaria algo fácil e conhecido dessa mesma casta. Não tinha!

A opção seria um Ravanal, chileno feito de Sauvignon Blanc que coincidentemente havíamos bebido quinta-feira em casa. Frágil demais, um vinho sem expressão. Restaria olhar o cardápio. Calor, e muito cansaço por ter acordado cedo depois de uma semana intensa para um raro compromisso profissional no sábado – olha a hora que estou postando meu texto sobre vinhos! Mas não posso reclamar, a palestra foi bacana, o trabalho dignifica, encontrei amigos queridos e ainda fiquei livre antes do almoço. Tudo isso passou rápido pela cabeça, e voltei à carta de vinho da Brusqueteria Tappi, restaurante ligado à loja de vinhos que faço compras perto de casa.

Olhei para a coluna da direita do cardápio e prometi que não passaria de R$ 100. Restaurante, quando é honesto, te dá várias opções nesse sentido. O Zapa tinha terminado, o Ravanal não me agradava, chardonnay não me apetece, sauvignon blanc eu não queria. E agora? A R$ 95 um alvarinho com arinto, mas lembrei que vou beber um português amanhã. Então olhei pra um espanhol. Agora vai! Mas também não tinha. E assim cheguei a algo descrito como biodinâmico, carbono free, orgânico e adequado aos veganos. Praticamente um vinho sustentável, politicamente correto, fincado nos novos tempos. É esse! Quero provar. Traga!

Vinho

O sommelier voltou com um balde cheio de gelo e uma garrafa comum dentro. Sacou a rolha e começou a explicar que gosta de entender vinhos biodinâmicos feitos de uvas raras. Opa! Uva rara? Onde estava isso na carta? Minha indiferença se converteu em curiosidade, a vontade de terminar o almoço pra encontrar o sofá se suavizou. A verdil é uma casta esquecida que alguns vinicultores, na Espanha, resolveram ressuscitar. Trata-se de uma uva autóctone, ou seja, que caracteriza uma dada região. Logo me veio à cabeça a jampal, do goleiro brasileiro que se estabeleceu em Portugal e ficou famoso por reencontrar a casta.

Aberto, o vinho se mostrou um pouco mais encorpado que o frescor ideal para o dia quente demandava. Amarelo um pouco mais intenso, casou-se perfeitamente com uma brusqueta feita a partir de abacate, e seguiu bem com um suculento meio galeto servido com batatas. O Finca Enguera blanco, da região de Valência, nos surpreendeu. Das notas que encontrei na internet li no Paladar que se trata de vinho de piscina. Discordo, mas o mundo das sensações existe pra isso. Achei bem mais intenso que algo desse tipo, mas concordo que seja equilibrado e bom de boca – bem melhor do que de nariz. No portal da Bodega, infelizmente, nada sobre o vinho. O que existe lá em destaque é um branco que leva 70% de verdil, mas também a chardonnay, a sauvignon blanc e a viognier. Aí desisti de procurar mais, pois com essas uvas eu volto pro começo da história. Saúde!

vinho 2

Fonte: vinica.com