O texto de hoje é quase um pedido de desculpas. Na quinta um amigo querido demais me pediu uma dica de um vinho feito de Cabernet Sauvignon na casa dos R$ 50 pra ele enfrentar a frente fria que se aproximava. Terminei de dar aula às 22h30, deixei pra sexta, fui carinhosamente cobrado e não entreguei. Fiquei chateado com minha atitude, até porque amo fazer listas desse tipo pra quem eu gosto. Mas o pior estava por vir: ele comprou um Occhio Nero – italiano trazido aos baldes para o Brasil e expressão máxima do que existe de menos razoável. Ao menos foi isso que senti todas as poucas vezes que encarei um rótulo deles.

Em sendo assim, vou tentar me redimir aqui com algumas dicas, começando pelo que tenho bebido, pois a uva é a segunda que mais consumimos nos últimos dez anos. Em 2020 foram sete, e não vou retroagir porque os preços têm mudado muito. No valor pedido e varietal a coisa é escassa. Começo a lista ultrapassando o limite posto para falar do Torii, um catarinense espetacular. Um dos melhores vinhos nacionais que bebi até hoje foi comprado num evento no ano passado por R$ 70 na mão do produtor. Vale cada centavo, é o melhor que tenho aqui, mas será difícil de ser encontrado.

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Assim, tenho que continuar e vou caminhar pelos nacionais por uma razão basilar: eles juntam honestidade e bons preços. Começo por um rótulo bem popular, que chega a mais de R$ 100 no Extra, mas que é achado na Super Adega por R$ 45. Trata-se do Miolo Reserva Cabernet Sauvignon. Ainda pelos lados do sul, a minha queridinha Valmarino, que andou reajustando os preços em seu site, tem um cabernet honesto demais a R$ 66. Na loja Boccati, de Caxias do Sul, o frete é zerado a partir de R$ 300 e é possível encontrar algumas boas opções: o Autêntico da Dom Cândido a R$ 49, o mesmo Miolo acima a R$ 43, o Casa Venturini a R$ 47, o Fausto da Pizzato a R$ 53 e o Fração Única da Perini a pouco menos de R$ 60. Eu ficaria com o Fausto que conheço, e com o Venturini por acreditar muito no projeto, pois o Tannat é excelente. Aqui uma compra de cinco garrafas chegaria em casa sem qualquer adição pelo transporte e garantiria um bom estoque.

venturini

Na Argentina, vou descartar o Morita, da Las Moras, que bebemos recentemente, mas indico o Fran da Nieto Senetiner. Atenção aqui: trata-se de um vinho feito para um público mais jovem que gosta de bebidas com um pouco mais de doçura e menos potência. Trata-se de uma tendência, e a casa sabe fazer coisas boas. Aqui em casa bebemos o blend (rótulo azul), mas acho que o Cabernet Sauvignon (rótulo branco) deve atender. No Bebidas do Sul vai sair por uns R$ 60. Numa linha mais rústica, temos o modesto Benjamin, da mesma Nieto, que custa R$ 45 no Empório Imigrantes – mesmo preço do Finca Flichman Roble. Nesse segundo caso, com mais R$ 5 leva-se o reserva. Arriscaria também, sem gostar muito, o Trapiche a menos de R$ 50 na mesma loja. Temos aqui um bom conjunto, e o estabelecimento promete entregar no mesmo dia.

Fran

No Chile aqueles rótulos chamados de Reservado carregam aqueles chips de carvalho, começam relativamente bem e terminam difíceis. Não gosto, mas indiscutivelmente são baratos. A Concha y Toro, bem como as diversas santas (Carolina, Helena etc.) são achados por menos de R$ 45. Sendo mais incisivo: eu evitaria, sobretudo porque tem muita coisa a menos de R$ 40 que me lembra uma lógica fastfood que desagrada. São todos iguais.

Na África do Sul e na Austrália existem coisas bem comerciais que se forem encontradas no preço – acima de R$ 50 e abaixo de R$ 60 – e na uva desejada podem agradar minimamente. Na Europa um varietal de Cabernet Sauvignon por esse preço só pode ser um flerte com algo difícil – cito o caso da escolha de meu amigo que me gerou peso na consciência. Eu evitaria. Atrasado, assim, que a lista acima lhe seja útil.